#historiaspraladeespeciais #o menino que sabe tudo sobre dinossauro

O MENINO QUE SABE TUDO SOBRE DINOSSAURO.

#HISTÓRIASPRALÁDEESPECIAIS

A INCLUSÃO ESCOLAR VAI ALEM DA LEI DA OBRIGATORIEDADE DA MATRÍCULA

 

Quando eu poderia imaginar que aquela grande admiração por dinossauros significaria “interesse restrito”?  E que isso tem um nome, um diagnóstico, uma sigla ou qualquer coisa parecida…?!

Na minha inocência de mãe de primeira viagem e com um laudo nas mãos que dizia:

¹CID 10-F84.0, QUADRO CLINICO COMPATÍVEL COM TRANSTORNO DO ESPECTRO DO AUTISMO

pensava eu “tudo bem, qual é o problema?”.

“É só um espectro, logo vai melhorar”.

Com esse CID comecei a minha peregrinação nas escolas de Curitiba-Pr.

E foi aí que me deparei com o despreparo das escolas regulares, falta de informação e preconceito.

Meu filho estudava numa escola na região de Curitiba, com três anos de idade já frequentava terapias: psicoterapia, fonoaudiologia e musicoterapia.

No início do ano letivo de 2011 a diretora da escola em que meu filho estudava me ligou. Queria conversar comigo. Chegando a sua sala, vi o meu filho e outra criança.

A diretora falou:

Veja só mamãe:  o seu filho tem 3 anos, não responde pelo nome, não interage com as outras crianças, fica parado olhando pela janela. Essa outra criança, que tem apenas um e meio, já está se comunicando bem, brinca e etc… sinto muito mamãe, o seu filho tem um retardo mental e precisa frequentar  a sala das crianças menores, nesse caso, um ano e meio.

Olhei seriamente para a diretora dessa escola e perguntei:

-Essa criança que está comparando com o meu filho tem diagnóstico de Espectro do autismo??? – falei aos gritos!

Peguei o meu filho nas mãos e entrei dentro do carro chorando muito.

 

Decidida a mudar de escola, iniciei um esforço para encontrar alguma que tivesse vaga naquela altura do ano. De dez escolas de Curitiba para as quais liguei e visitei, TODAS negaram a matrícula para o meu filho. Eu não conseguia entender o porquê da repulsa. Para mim, meu filho não tinha nada contagioso ou qualquer motivo que fosse perigoso para conviver em sociedade.

Lembro-me muito bem que em uma dessas dez escolas me  receberam e me trataram muito bem, até vaga disponível tinha, mas quando falei do diagnóstico, a coordenadora me chamou a uma sala separada com os olhos arregalados e disse:

Não temos mais vagas para crianças especiais.

Sem entender, perguntei:

Ano que vem terá?

Me respondeu:

Nem ano que vem e nem para o próximo ano.

 

Em outra, fui visitar e solicitar a vaga. Deixei a diretora surtada quando falei que o meu filho tinha autismo. Ela argumentou:

Você conhece o nosso material didático? – mostrou-me o material didático.

Você acha que o seu filho vai conseguir acompanhar? Essas leis que vêm de cima para baixo… não nos perguntam se podemos atender crianças especiais. Os meus professores não são preparados para receber esse tipo de criança.

Respondi:

Então comece a capacitar os seus professores, eu sou a primeira de milhões que estão por vir.

E assim, segui, chorei, por dez vezes… Penso, que a maior tristeza e revolta para uma mãe é o seu filho simplesmente não ser aceito.

Houve várias situações, até de escolas indicarem outras escolas:

“não somos preparados, mas tem uma escola que pode fazer isso”.

Foi quando na décima primeira, já desistindo, nem fui visitar, apenas liguei. Com muito medo, já falei por telefone, pois parecia que estava PEDINDO UM FAVOR!!!

Disse que o meu filho tinha TEA, a diretora respondeu: “tudo bem”.

“Tudo bem?” Pensei eu, essa escola deve ter algum problema.

Caía um temporal em Curitiba, saí assim mesmo e fui a esta escola.

Meu filho foi recebido de braços abertos, seu desenvolvimento foi significativo. Em seis meses era outra criança.

 

Nessa época (2011), não havia a lei ²12.764/2012, até então o autismo não era equiparado a deficiência. A partir dessa lei foram conferidos aos TEA todos os direitos das pessoas com deficiência. UM DELES, o direito à inclusão escolar, inserção no ensino regular, sem discriminação e igualdade de oportunidades.

 Mas, a escola vestiu a camisa!!

Acredito que a inclusão é maior que qualquer lei, porque a lei está no papel, obriga, mas o processo de inclusão é muito mais que isso, é uma transformação política e social. Pena que foi apenas na Educação Infantil. Tive que retomar a minha peregrinação e luta pela inclusão escolar para o ensino fundamental 1.

 

 

 

Mas isso deixarei para lhes contar nos próximos posts!!

Estefânia Mendes

 

¹ CID- A Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde, frequentemente designada pela sigla CID (em inglês: International Statistical Classification of Diseases and Related Health Problems – ICD) fornece códigos relativos à classificação de doenças e de uma grande variedade de sinais, sintomas, aspectos anormais, queixas, circunstâncias sociais e causas externas para ferimentos ou doenças.

² Lei 12.764/2012 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2014/decreto/d8368.htm

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